Saideira

Por Jaguar

Notívagos e notívagas, pesa-me dizê-lo: já não se faz mais boemia (atenção, revisão, por favor sem acento circunflexo, boêmia pra mim é mulher de boêmio) como antigamente. E não vai saudosismo nisso; hoje as bebidas estão muito mais ao alcance dos simples mortais.

Há não muitas décadas, só os muito ricos tinham acesso a scotchs e bebidas importadas em geral. Nós, o povo, íamos de Cuba-Livre (coca com rum Merino), o velho Fogo Paulista, conhaque Palhinha ou George Aubert, Dudu (conhaque Dubar com quinado idem). Gim tônica (com Seagers, diga Siga), Hi-Fi (Crush ou suco de laranja com vodca Dubar), Samba em Berlim (coca com cachaça Cardoso Gouveia de litro ou Crioula, 4 pedras de gelo e uma rodela de limão).

Vinhos, que me lembre: Único, Chateau Duvalier, Precioso, Telefone. Uísques: London Tower, Duke of Scotland, Old Lumquar (o saudoso Lumumba), Mansion House, e um espantoso Banadrink, uísque com (argh!) banana, fabricando em Itaguaí. É inacreditável como meu fígado não se desintegrou.

O primeiro scotch que provei – e isso depois dos vinte anos – foi o imortal Old Parr, um dos meus preferidos até hoje, e a primeira vodca, Wiborowa, polonesa.

Mas, voltando à boemia dos dias de hoje: como um quartel ou um hospital, o Rio está fechando cedo. Pode-se contar nos dedos (do Lula) os lugares que ficam abertos até duas da manhã, sem o horror inenarrável dos garçons empilhando as mesas.

Digo e repito: essa história de bares que ficam abertos até o último freguês é balela. Em geral, o último freguês sou eu, e sei que está na hora de ir embora quando começam a jogar água sanitária nos meus sapatos.

Já que não dá para terminar a ronda (direitos autorais para Paulo Vanzolini) com o sol nascendo, o jeito é começa-la com o sol morrendo. Então, vamulá. Um programa possível: um bom lugar para abrir os trabalhos, lá pelas sete da noite, é o Brasil da Lapa. É um lugar agradável para os dias de chuva, mas não muita. Estávamos lá quando caiu um tremendo toró. Os bueiros entupidos da Mem de Sá transbordaram; acabamos ilhados, sentados em cima da mesa enquanto o Chico servia as bebidas com água pelas canelas.

Em caso de céu azul, prefiro a varanda do Mistura Fina, curtindo o deslumbrante pôr-do-sol na Lagoa. No Mistura sempre rola um jazzinho, com Zé Pité no piano e às vezes o Raul Mascarenhas dá canja no sax, enquanto não aparece uma mulher que o convença a partir para mais um casamento. Depois o grande Osmar Milito rende o Zé Pité, vindo, por estranho, desde as seis da noite, toca no Espaço Celidônio, onde, depois do pianista, a grande pedida é o sanduíche de lombinho com mangoa chuteney na baguete.

É pertinente dizer que o Mistura não ganhou um capítulo neste livrinho pela simples razão de que eu fazia n’A Notícia uma seção, “Conversa de Botequim”, que acabou quando o jornal foi fechado inesperadamente (para mim). Acompanho o bar (ou vice-versa) desde quando começou, no Leblon. Pedro Paulo, o dono, é um craque; o bar é ótimo e o restaurante idem. Como adora jazz e MPB, já apresentou muita gente boa no palco do segundo andar, desde prata da casa – João Donato, Dori Caymmi, Marcos Valle, etc. – ao ouro de fora, como Ron Carter, Michel Legrand, John Pizzarelli e que tais.

Outro bom lugar, na Epitácio Pessoa, é o Lagoa, com vista privilegiada para as periódicas mortandades de peixes. Mas é a praça do meu garçom – e todo boêmio que se preza pode ser infiel à mulher mas nunca ao garçom –, o Figueiredo, por cuja face jamais passou a sombra de uma sorriso. A minha mesa cativa fica nos fundos do restaurante. A vista também é boa, dá para as garrafas atrás do balcão.

Faltou também o Bofetada, na Farme de Amoedo, onde Lúcio Rangel tinha mesa cativa (junto à parede, à direita de quem entra). Tantas histórias! A melhor é a do sujeito que telefonou às cinco da manhã para a casa do dono querendo saber a que horas o bar abria. Um caso de alcoolismo em último grau, deve ter pensado. E aconselhou o bebum a procurar um desses bares que nunca fechavam (quando os havia), como o velho Igrejinha, que também atendia pelo nome de Faroeste, na Francisco Otaviano, que os anos não trazem mais.

Resumindo: o cara não queria saber a que horas abria para saber, queria era sair. Tinha ido ao WC e dormiu sentado no vaso. Às duas da manhã o gerente fechou a casa e não reparou que ele ficou preso lá dentro. Hoje o Bofetada é um dos últimos dos moicanos, continua firme; ganhou um andar e virou ponto gay.

Quando soube da história pela coluna do Zózimo no JB, chamei o garçom e perguntei se o fato de ser visto bebericando ali não iria comprometer minha reputação. “Até às cinco da tarde, doutor”, foi a resposta, “tudo bem. Depois…”

Não completou a frase, mas deu a entender que seria por minha conta e risco.

Não falei no centenário Bico Doce, onde até hoje tem a mesa do Barão do Rio Branco. Nem do bar da Marius, na Francisco Otaviano, do Mairos Fontana, um cara supercriativo – transformou as velhas churrascarias engorduradas em restaurantes de alto nível e foi o primeiro a oferecer generosas doses de scotch quase a preço de custo. Nem do Quiosque Quase Nove, no calçadão de Ipanema, em frente à Montenegro, digo, Vinicius de Moraes, onde se toma uma caipiríssima de lima-da-pérsia ao som de Tom e o titular da rua e de frente para o sol mergulhando atrás do morro Dois Irmãos.

Faltaram o Álvaro’s, o Triângulo das Sardinhas, o bar (bares) preferido do Hugo Carvana e da Martha, onde foi inventando o Frango Marítimo, o pub Lord Jim, na Paul Redfern, onde bebo Guinness, neguinha gostosa, e as melhores cervejas belgas, inclusive a Delirium Tremens, que não se perca pelo nome, como diz o Hélio Fernandes. Em frente, recém-inaugurado, o Bar-Delicatessen La Botelha. Ah, sim, o Esch Café, na Dias Ferreira, mistura de Nova York, Havana e Ceará que deu certo – na happy hour tem o sax de Mauro Senise e Edgar Duvivier; a Taberna Carioca, na rua do mesmo nome, quase em frente ao Bar Luiz, o reformulado Garden, no Jardim de Allah. No Chico’s Bar, pontifica o piano de Luiz Carlos Vinhas nas madrugadas e foi cenário de um porre histórico de Liza Minnelli.

E tantos outros: o Cervantes, com seu célebre sanduíche de pernil com abacaxi, na Prado Jr., mais embaixo o Santo Expedito, boteco onde David Neves passava mais tempo do que em casa, o Lamas – há uns vinte anos era uma espécie de clube, todo mundo se conhecia e Nei Hamilton tinha mesa cativa, sentar nela era um privilégio, chegou-se a cogitar de crachá para ter a subida honra de ver o Nei beber seus 17 chopes por noite, nem um a mais nem um a menos. Outro dia fui lá, de conhecido só o Vieira, indestrutível garçom.

E como não mencionar o Nova Capela, quase ao lado do Brasil da Lapa, na Mem de Sá, um dos últimos a fechar, com o frango à francesa que o Siné, quando esteve no Brasil fugindo da polícia de De Gaulle, queria comer todas as noites e garantia que na França não tinha nada igual. O Estephanio’s, recente descoberta do Aldir, perto da praça Varnhagen – a dos passarinhos, – ah, ia esquecendo do Villarino, um dos poucos bares-mercearias que restam, ostentando ao fundo um painel fotográfico com alguns ilustres boêmios vespertinos, entre eles Vinicius, Maneco Müller e Sérgio Porto. Foi do Villarino que, fantasiado de acadêmico, parti para jogar ovos na frente da ABL para protestar contra a posse de Roberto Campos.

Recém-aberto, o bar da Keka desceu a serra e é o caçula dos bares aqui citados; fica na Henrique Dumont, em Ipanema. Graças à criatividade de dona, tem tudo para dar certo. Já provei e aprovei o carpaccio vertical e picadinho na faca. E por falar em serra é bom lembrar o Mister Piano, do Mauro Damásio, no Shopping Valley, na Estrada União Indústria, e também o Porão do Imperador, na mesma estrada, onde se pode provar as melhores pingas do Brasil, e o The Place, lugar ideal para tomar um conhaque no inverno, diante da lareira e o legendário Fiorentina, que recém-renasceu, qual Fênix, das próprias cinzas.

E tem alguns bares muito, muito exclusivos, fora do alcance do chamado público em geral: o Gravatá’s, o dos Carusos – Eliana e Chico – o pub da SBW (Sociedade Brasileira do Whisky), no Flamengo, e o bar da varanda no Marimbás, com uma vista privilegiada de Copacabana, o Noronha’s, o Técio’s…

Dizem que – benza Deus – na Penha tem um bar, o Rossio, que não fecha nunca. Também chamado de 24 horas, Sem-Porta ou CTI, já que fica ao lado do Hospital Getúlio Vargas. Não fui lá e provavelmente nem irei. Não por falta de disposição ou por longe do Leblon, onde o velho Jaguar do ano (de 32) está estacionado. Não vou por medo de ser assaltado mais uma vez. A insegurança, essa sim, é a grande inimiga da boemia. Desisti do rolé noturno depois do terceiro assalto.

Quando bate a insônia e a vontade de sair por aí fico pensando nas possibilidades de assalto, que são, no mínimo, seis: saindo de casa, no sinal, chegando no bar, saindo do bar, de novo no sinal e chegando em casa. Daí, desisto de sair, pego uma cerveja na geladeira, uma vodca no freezer e fico bebendo até apagar, lamentando não estar em Barcelona, esta sim a cidade que o povo da noite pediu a Deus.

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