Saudades do jejum

Por João Ubaldo Ribeiro

Hoje não tem mais nem Semana Santa como antigamente. Principalmente as Semanas Santas que passei, quando era menino em Aracaju. Isto já faz mais tempo do que eu gostaria de admitir, mas, de qualquer forma, não faz tanto tempo assim. Faz o suficiente, é bem verdade, para eu ficar escandalizadíssimo com as Sextas-Feiras Santas de hoje em dia. Não está direito.

Desde o começo da Semana Santa, a gente escutava umas aulas de catecismo tristíssimas, tão tristes que às vezes a professora chorava e todo mundo chorava, de maneira que, na Sexta-Feira Santa, o clima já estava preparado. Não precisava nem da missa, com o padre todo de roxo e falando uns latins que a gente estava sentindo que era coisa tristíssima, porque todo mundo já amanhecia triste.

Se alguém ligasse o rádio (estava na cara que era meio pecado, mas às vezes a gente facilitava e ligava, tudo tentação do Cão, é claro), só ia ouvir música clássica. Não precisava ser sacra: podia ser a Heróica, podia ser até a abertura de Madame Butterfly. Mas tinha de ser clássica, coisa séria, para mostrar respeito, e então às vezes a gente escutava aquela música e ficava mais triste ainda. Também não se podia falar alto, dar muita risada e sair correndo por aí, como se fosse um dia normal. Futebol, nem pensar, as pernas podiam ir mirrando, mirrando, até Deus castigar de vez e o sujeito passar o resto da vida de muletas.

O que salvava a Sexta-Feira Santa, naturalmente, era a perspectiva do Sábado de Aleluia. Algumas famílias davam até presentes às crianças. A minha não dava, mas, já na sexta-feira de noite, a gente podia sentar no sofá e arriscar umas risadinhas, porque, quando a mãe reclamava das risadas, a gente falava que era porque amanhã Cristo ia ressuscitar e aí a mãe achava justo. Aliás, geralmente achava tão justo que começava uma risadaria sem fim, todo mundo se torcendo de rir uns dez minutos. Era bom.

No sábado, a molecada toda se reunia junto aos postes de ferro para começar a fazer barulho assim que o sino da igreja de São José tocasse. Tocava mais ou menos às dez horas e aí a gente batia com pedras e martelos nos postes, até que toda Aracaju era uma aleluia só. Mais tarde, deixavam as crianças ficar acordadas noite adentro, para assistir à queimação de Judas, precedida da leitura de um testamento em versos, em que alguém sempre herdava um penico enferrujado e todo mundo achava engraçadíssimo. Uma vez eu herdei esse penico e, pensando bem, meu patrimônio não se ampliou muito além disso até hoje.

A Semana Santa também se caracterizava pelo rigoroso jejum que a gente observava. Comer carne, principalmente a partir da quarta-feira, o mínimo que dava era a pessoa ficar a noite em claro, achando que ia morrer estuporada. Pelo menos pereba dava, era fato conhecido. Então, já na segunda-feira, minha mãe não facilitava, não existe nada pior do que menino perebento. Ela anunciava, na hora do almoço:

– Esta semana, jejum completo!

Era um grande sacrifício. Com a família toda reunida em volta de uma mesa gigantesca, a gente enfrentava: uma moquequinha de curimã; um escaldado de curimã, para os meninos enjoados, que não comiam moqueca; uma salada de bacalhau, para meu avô português, mas todo mundo metia a mão; curimã frita, para os meninos ainda mais enjoados, que não comiam nem moqueca nem escaldado; um vermelho assado, que minha mãe não deixava de fazer, senão meu pai reclamava e dizia que era muito, muito infeliz, e então minha mãe enchia meu pai de vermelho assado; feijão de leite; feijão normal, para os meninos enjoados e meu pai, que não comíamos feijão de leite; um ensopadinho de camarão, para o caso de chegar alguém e a gente poder passar vergonha; arroz, chuchu, maxixe, abóbora, tomate, macaxeira, fruta-pão, inhame, pão (para meu avô português), macarrão, manga, abacaxi, caju, melancia, mamão, pitomba, gravatá, marmelada, goiabada, compota de caju, doce de leite, baba-de-moça, biscoito rico, queijo de bode, requeijão, manteiga de garrafa, bolachão, suspiros e sequilhos, além de mais umas vinte coisas, que a memória me falha nestas horas. Na verdade, o jejum lá de casa era conhecido e vinham amigos e parentes de longe, só para jejuar com a gente. Sempre foram recebidos, não davam trabalho algum, bastava acrescentar uns cinco pratos ao cardápio e reforçar o tira-gosto, que começava a sair às dez horas da manhã de terça-feira e só parava domingo de noite, pelo menos que eu saiba.

Hoje, não. Hoje ninguém mais jejua, é ou não é? Principalmente aqui no Nordeste. Deve ser o desgaste do espírito religioso de nosso povo. Aqui no Nordeste se passa muita fome, mas nunca que é a mesma coisa.

(Crônica publicada em 19 de abril de 1981, no jornal O Globo)

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