Um cronista salva a memória

Por Mário Goulart

Coisas da vida: o cronista Lupicínio que, verdade seja dita, era muito ruim, acabou colaborando no resgate da memória do compositor que, como se sabe, era muito bom.
Quer dizer: não nos deixou impressas páginas admiráveis de literatura nem sequer conseguia gravar claramente seu posicionamento filosófico diante da vida e do mundo. Não. Mas deu pra nos passar que, diante de um copo numa mesa de bar, ele bebia a vida e o mundo para, aí sim, compor canções admiráveis da música brasileira – onde, claro, expôs a sua filosofia.

O cronista exerceu sua função no jornal Última Hora de Porto Alegre, na coluna semanal “Roteiro de um boêmio”, publicada de fevereiro a dezembro de 1963 basicamente para contar as histórias de suas músicas. Ali ele falou de tudo um pouco: boemia, mulheres, boemia e mulheres. Assunto não faltava. Às vezes falava também de sua infância e adolescência e justamente nisso cá estou, debruçado, à cata de informações seguras e confiáveis pra juntar às outras, recolhidas em arquivos de jornais, livros, discos, fascículos e depoimento de amigos e parentes – sem esquecer, é óbvio, os testemunhos históricos dos dois biógrafos lupicinianos.

Assim, posso afirmar com segurança que Lupi nasceu num dia de muita chuva, muita mesmo, e tanta que ambos os biógrafos citados iniciam suas respectivas biografias com verdadeiros rios, onde chegava uma canoa transportando dona Júlia, a parteira. Isso foi no dia 16 de setembro de 1914, e Lupi chegou ao bairro inundado da Ilhota (hoje extinto), em Porto Alegre, na condição privilegiada de primeiro filho homem da família, quarto de uma série fantástica de 21 descendentes.

Passou a infância brincando e pulando, como todas as crianças. “Só com uma diferença: tudo que eu fazia era cantando.” E cantava demais. Até mesmo no Colégio Complementar, o primeiro em que foi matriculado, aos seis anos, tendo a diretora que mandar chamar seus pais, dona Abigail e seu Francisco Rodrigues. Seu Francisco, porteiro da Escola de Comércio, achou que aquilo não podia ser verdade e fez nova tentativa: botou o Lupi noutro colégio, o Ganzo. Pouco depois, a mesma reclamação. O guri só queria cantar! O adulto, orgulhoso, contaria isso muito anos depois: “Vejam, meus amigos, que desde pequeno trazia no sangue o micróbio do samba, este micróbio que cresceu comigo e não quer me abandonar, quanto mais velho eu fico mais ele se apega a mim”.

Por causa do micróbio esse, Lupi ficou mais um ano vadiando. Aí não deu outra: teve que encarar mesmo o Colégio Dom Sebastião, um anexo do Nossa Senhora do Rosário destinado aos meninos pobres. Pobres e ricos, aliás, disputavam a sua luta de classes através de lutas corporais, estas vencidas sempre pelo proletariado. “Só num lugar nós nos portávamos como irmãos. Era na hora da missa na Catedral, porque éramos obrigados a assistir juntos todos os domingos para não perdemos pontos nos exames.”

Concluído o curso primário, Lupi ingressou na Escola Técnica Parobé, por que, acreditava o pai, ia ser um grande mecânico. Olhos mais atentos, porém, veriam que nessa época Lupi já era o boêmio consagrado do futuro. Pra quem tinha o bichinho, aquele, era impossível resistir ao som e à malandragem que se propagava por toda a Ilhota, famosa pelas música, pelas mulatas e pelos vigaristas. Destes citemos os exemplos do Mãozinha e do Afonso Silvino, verdadeiros artistas, respeitados até pela polícia. (A pedido de alguns desses velhos gatunos, Lupi há muito tempo fez o samba “Ladrão conselheiro”, gravado pelo Moreira da Silva, fotografia nítida da época: “Seu guarda / faça o favor de me soltar o braço / e me dizer que mal eu faço / a esta hora morta / estar aqui a forçar esta porta. / Olha, eu estou me defendendo / e o senhor me prendendo / só leva prejuízo consigo / porque amanhã seu delegado me solta / e o senhor é que topa / com mais um inimigo”.)

Entre as mulatas da Ilhota, havia uma muito bonita e boa de briga, assunto preferido das lavadeiras: Isabel. Foi parar num samba, claro, “Bairro de pobre”, porque o Lupi acabou “ficando preso em (seus) braços / sabendo ser um dos palhaços / que as lavadeiras vão ter”. O som que encantava o Lupi era feito pelos quarentões Diomedes, Belarmino e outros seresteiros, com os quais formou uma bandinha chamada sugestivamente de Furiosa. Com doze anos, ele era o cantor. No carnaval, a banda se transformava em cordão com o nome de Moleza e foi aí que, em 1928, surgiu o compositor. A turma precisava de uma marchinha e o guri, aos treze anos, tranquilo, compôs sua primeira música: “Carnaval / Foste criado por Deus pra brincar / Vais embora e não queres me levar / Me diz onde vais, ó meu Carnaval. / A cantar vou / Pra não chorar nem mostrar minha dor / Pois sei que vais me deixar, Carnaval / Tão cedo não vais voltar”. (Carnaval)

Convenhamos: desse jeito o negrinho não ia nem ser mecânico nem qualquer outra coisa que dependesse de estudos. Além dos bares e das serenatas da noite, de dia havia o futebol que o meia-direita Lupi jogava pra valer. (Curiosidade: ele jogou no mesmo time da liga Canela Preta de onde saiu mais tarde o famoso craque Tesourinha.) Nos intervalos ele era aprendiz de ofício na Companhia Carris Porto-alegrense e na fábrica Micheletto e, entre outros, fazia serviços de mandalete. Seu Francisco teve então uma ideia genial: botou Lupi no quartel, como voluntário, no 7º Batalhão de Caçadores. Mas seu Francisco não contava com o micróbio, aquele, e acabou, sem querer, contaminando uma parte do nosso glorioso Exército. Foi justamente no 7º Batalhão que o Lupi foi arrumar companheiros para formar outro conjunto musical…

Por essa época Lupi tinha o apelido de Mário Reis, o rapaz da Ilhota que cantava baixinho. “Porque, modéstia à parte, quem criou esse sistema de cantar e gravar dizendo, que hoje toda essa garotada bossa nova canta, fui eu. Quem fazia programas nesse estilo no rádio, e gravava, era eu.” Na verdade, Lupi queria dizer que foi o propagador mais importante do estilo criado pelo Mário Reis. “Eu copiava o Mário Reis quando garoto. Depois ele desapareceu, eu fiquei cantando naquele jeitinho.”

Copiar o Mário Reis é algo de que se deve orgulhar? É. Naquele tempo cantor mesmo era o do tipo do Francisco Alves, detentor do famoso dó no peito. “Ninguém acreditava que um camarada sem voz pudesse cantar.” Portanto, é preciso acrescentar aos méritos do compositor os do cantor, sim senhor, e moderno! – desde os anos 30! Augusto de Campos: “Antes que João Gilberto inaugurasse o seu estilo novo, canto-falado, contraposto ao modelo operístico do cantor-de-grande-voz, que predominava até então, Lupicínio aparecera como um cantor de voz mansa e não empostada – só levemente embargada – que transmitia, como nenhuma outra, os temas de sua música”.

Se vocês pensam que o Lupi foi se considerar grande intérprete depois que o Augusto de Campos falou isso aí, em 1970, estão enganados. As declarações dele são de 1968, no tal depoimento ao Museu de Imagem e do Som do Rio de Janeiro. E muito antes disso, ele, que só aparentemente era um modesto, se gabava de cantar bem. Aos 50 anos, Hamílton Chaves: “Tu não é cantor, rapaz, põe na tua cabeça. Tu é intérprete, tu está além da época. Neste país subdesenvolvido cantor é quem tem voz operística”. Pinta um contrato com a boate o Meninão, do Rio, uma fortuna. Lupi, tirando um sarro do Hamílton: “Meu camarada, olha aqui o que eles vão me pagar. Já pensou se eu fosse cantor?…”

(E já que estou falando nisso, deixa eu incluir nos elogios ao cantor o testemunho do amigo Rubens Santos – “Na madrugada ninguém cantava melhor música do que ele mesmo” – e o sucesso que ele fazia, cantando, nas boates de Porto Alegre, Rio e São Paulo.)

(Outra coisa: a modernidade da obra! Transmitida, é claro, principalmente pela reinterpretação dos novos grandes cantores, como Gal Costa, Caetano e Zizi Possi. Juarez Fonseca, jornalista: “Há músicas que a gente sabe que são lindas, mas vê logo que são antigas. As do Lupi, não: parece que foram feitas ontem!”)

Voltando ao milico, há uma história curiosa que o Hamílton conta na sua matéria de 1952 (e que, de um jeito ou de outro, todo mundo reconta…). O soldado Lupi embarca para São Paulo, na Revolução Constitucionalista de 32. Não participa de nenhum combate, mas faz um samba criticando a comida – que era só charque com farinha – e compra uma briga com o comandante, que dá o troco:

– Se o senhor não gosta de charque, coma farinha. Se não gosta de farinha, coma charque. Vamos acabar com esse negócio de fazer samba. Está entendido?

Pouco depois, antes mesmo de completar dezesseis anos, foi promovido a cabo e transferido para Santa Maria. “Foi naquela cidade que acordaram meu coração”, declarou, porque lá conheceu o seu primeiro amor, Inah, e fez algumas de suas primeiras músicas, como Zé Ponte e Felicidade. Inah foi sua noiva, mas casou com outro, tornando-se também sua primeira dor-de-cotovelo. Lá ele conheceu ainda uma menininha de uns dois anos de idade chamada Cerenita, cujos cachinhos loiros ele “comprava” por alguns mil-réis. Dezoito anos mais tarde casaria com ela.

Caindo fora do Exército, Lupi volta a Porto Alegre, mais atrapalhado do que nunca. Procura emprego e, enquanto não acha, é crooner do grupo Catão, que anima festas e faz serenatas. Quer dizer: boêmio. O pai dá um jeito e arruma com o desembargador André da Rocha uma vaga pro Lupi na Faculdade de Direito, lá por 1935. Pronto: seresteiro vira bedel (cargo que ocupou até 1947, quando, com um problema nos pulmões, conseguiu sua aposentadoria).

Mas o bedel não deixa de ser seresteiro, que cada vez mais é compositor, que começa a compor de verdade e até ganha um prêmio (se bem que já ganhara dois antes, em Porto Alegre e Santa Maria, ambos com “Carnaval”). “Triste história”, em parceria com Alcides Gonçalves, vence um concurso e torna seu nome cada vez mais conhecido. E em 1936 nasce enfim o profissional, levado pro disco pelo mesmo Alcides e daí por diante o compositor Lupicínio Rodrigues vai estabelecendo sucessos através de vozes prestigiadíssimas.

“Se acaso você chegasse”: com o Ciro Monteiro, em 1938.

“Cadeira vazia”, “Nervos de aço”, “Maria Rosa”, “Quem há de dizer”, “Esses moços, pobres moços”: com o Francisco Alves, entre 1938 e 1948.

“Felicidade”: com o quarteto Quitandinha Serenaders, em 1947.

“Zé Ponte”, “Brasa”: com o Orlando Silva, na metade de 1949.

“Vingança”, “Volta”: com a Linda Batista, em 1952.

“Nunca”: com a Dircinha Batista, em 1952.

“Minha ignorância”: com a Nora Ney, em 1954.

“Há um Deus”: com a Dalva de Oliveira, em 1957.

“Ela disse-me assim”, “Exemplo”, “Torre de Babel”: com o Jamelão, entre 1959 e 1963.

E em que falava o cronista? Bom, quando não estava escrevendo sobre música ou mulher, ele se detinha noutro assunto preferido: a boemia, o que vem tudo a dar no mesmo. Mas queriam que ele escrevesse sobre o quê? Ao cronista, portanto, toda liberdade de imprensa e, para nós, uma boa maneira de conhecer um pouco mais o homem. Abaixo, uma amostra dessa literatura.

O mestre, numa sala de serenata:

“Existem diversas formas de serenatas. Tem a dos boêmios que de madrugada, não tendo mais onde beber, procuram a casa de um amigo e vão cantar uma música qualquer, sem compromisso, como dizemos na gíria, à espera que alguém abra a janela e alcance uma bebidinha.

Tem a serenata de um grupo de pessoas que, estando alegres, acham que devem comunicar ou transmitir essa alegria aos seus amigos e, com uma turma de violão, pandeiros, tamborins, numa barulhenta infernal, vão acordar os vizinhos.

Agora existe a serenata dos apaixonados; esta é a serenata mesmo: esta é aquela que se chega de mansinho com o máximo de cuidado para não acordar ninguém, a não ser com música e lindas músicas, músicas que brotam da alma do apaixonado, que a essa altura deve estar brigado com sua amada ou querendo fazer crescer mais o seu amor.

Estas serenatas até quem as recebe deve saber recebê-las; não devem fazer barulho, arrastando cadeiras ou abrir a janela antes da serenata ser oferecida; uma simples tossezinha ou um suspiro na frestinha da janela é o suficiente para que o seresteiro saiba que está sendo ouvido e caprichar mais na interpretação, fazendo com que sua alma una-se, espiritualmente, à sua amada”. (Serenata, 16.3.1963)

O escritor e suas analogias:

“Se tivéssemos que escolher entre o animal um companheiro, não hesitaríamos, escolheríamos o mosquito, porque é ele quem deita e acorda com a gente, e não sei se já repararam que eles têm a nossa mesma mania, de cantar no ouvido das pessoas”. (O mosquito, 23.3.1963)

O herege e o malandro reincidente:

“Mas existem também objetos que são para nós verdadeiros pesadelos. Por exemplo, o chinelo das nossas ‘patroas’, o rolo de massa, a vassoura e outros utensílios que costumam nos esperar quando chegamos tarde.

Mas de todos eles o nosso pior inimigo é o relógio; ele é causador de quase todo o mal que acontece. (…) Ele divergiu completamente da finalidade para que foi criado, pois ele foi inventado para medir o tempo e resolveu, por si mesmo, assumir outras atribuições, como, por exemplo, diminuir o tempo.

Este negócio de morte por acidente, doença, homicídio ou outra coisa qualquer, não é nada mais do que uma desculpa para que não digam que foi Deus quem nos matou, pois quando Adão comeu o fruto proibido, Deus lhe chamou e disse: ‘Comerás o pão com o suor de teu rosto, viverás e morrerás’. Com estas palavras foi criada a morte e o trabalho como castigo e maldição, estando nós condenados à morte.

Na igreja onde eu moro, e mesmo em minha casa, tem um relógio que só serve para me desmentir. (…) Aí a ‘patroa’ começa a sururu e não me deixa mais dormir”. (O relógio, 27.4.1963)

O vivido e o vencedor:

“Sempre que falo do bem, gosto de falar do mal, porque eles são companheiros inseparáveis. Sem um, não haveria o outro. Ninguém pode saber o que é bom, sem ter conhecido o mal. Eu posso falar de cátedra dos problemas de todas as camadas sociais. Já fui servente de pedreiro, bedel de uma faculdade e hoje sou diretor de uma repartição; tomo cachaça no Kibon e uísque no City Hotel”. (O bem e o mal, 18.5.1963)

O machista, o cínico e o oportunista:

“Outro dia, eu falei da sinceridade do boêmio em seu lar e no cuidado que ele tem com as mulheres, para não cair nas suas ‘arapucas’. Entretanto, o amor é muito traiçoeiro. (…) E os boêmios, que não são ‘bruxos’ para escapar, muitas vezes são envolvidos por seus tentáculos, começando aí a grande luta da consciência contra o coração.

Alguns homens, menos sensíveis, resolvem o caso sem dificuldade: seguem o amor que aparece sem pensar em consequências futuras. Mas o homem que tem consciência e responsabilidade, pensa muitas vezes antes da decisão final. Não aceita a sua felicidade em troca da felicidade de sua família, o que, segundo julgo, é certo.

É preciso que nossos pecadilhos, se acontecerem, não afetem nossas esposas nem nossos filhos. Tudo não deve passar de uma aventura sem consequências, um romance fugaz. Eu digo isso porque já andei fazendo ‘das minhas’ e sei bem o que sofri”. (Hoje vou falar de amor, 6.7.1963)

O eterno apaixonado, a perigo:

“Eu ainda era broto quando isto aconteceu e jamais podia esperar que a mesma coisa viesse se repetir vinte anos depois. Eu andava naquela época apaixonado por uma dona que era uma verdadeira ‘uva’. Todo o dia a gente brigava, até pelos motivos mais banais. Mas, cego do amor como eu andava, ia levando aquela vida assim mesmo. Até que um dia, um amigo chamado Piranema, já falecido, mas que ainda está vivo na memória dos velhos boêmios, que chamou a atenção (…).

Afastei-me da mulher, mas meu coração não se conformava. Foi então que se travou a grande luta, luta esta que me fez compor uma música para desabafar (‘Eu e meu coração’). Agora, vinte anos depois, está me acontecendo a mesma coisa daqueles velhos tempos. A primeira vez eu tive forças suficientes para suportar os gritos do meu coração. Mas agora, mais velho, não sei se poderei fazê-lo”. (Vinte anos depois, 16.11.1963)

 

(Segundo capítulo do livro “Lupicínio Rodrigues”, de Mário Goulart, que iremos publicar na íntegra, capítulo por capítulo, diariamente. A introdução e o primeiro capítulo podem ser lidos aqui no Portal, na seção “Memória Viva”.)

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