Um sóbrio em Salvador – Relembre a crônica do carnaval baiano que marcou gerações de foliões

Por Felipe Moura Brasil

O primeiro texto viral, a gente nunca esquece.

Publicado originalmente logo após o carnaval de 2004 no extinto site Tribuneiros, que eu editava junto com Carlos Andreazza, hoje meu editor na Record, “Um sóbrio em Salvador” acabou rodando o país por e-mail naquele tempo em que ainda não havia Facebook e o famigerado Orkut contava apenas um mês de vida.

Durante meses e meses, amantes e detratores de Chicletes, Asas e pegações me escreveram milhares de mensagens de todo o Brasil não só para comentar o texto que recebiam e repassavam à lista de amigos, mas também para relatar suas experiências carnavalescas, de modo que virei o maior terapeuta de micareteiros do país, muitos dos quais, felizmente, são meus leitores até hoje.

Ninguém jamais havia descrito o carnaval soteropolitano em toda a sua loucura – e não seriam os Verissimos, Venturas e Ubaldos dos grandes jornais que vestiriam o seu abadá para descrever em crônica a experiência vivenciada pelos foliões da minha geração.

Citado em diversas reportagens, a maior delas na Revista O Globo de domingo, “Um sóbrio…” marcou para sempre a minha sobriedade, da qual eu jamais poderei abrir mão sem a sensação de trair o meu próprio legado.

Confiram aí, porque, como se vê, nem todo carnaval tem seu fim.

Um sóbrio em Salvador (2004)

Tem que beber! Tem que beber! É a apologia geral. Carnaval em Salvador a seco? Cê num vai güentá, bróder, pago pra ver. Dei de ombros, disfarcei o susto meu de cada dia no campo de concentração, ordens superiores e exclamadas, a alta patente da folia, veteranos de blocos, eles bebem sim, estão vivendo, eles e a turma da persuasão em confidência, a mão no ombro e o ponto final: vá por mim, beba. Por você, não vou, obrigado, e meus botões, pouco antes das férias na gaveta, me alertaram com a experiência dos que já perderam muitos semelhantes no roça-roça de outros carnavais: cuidado, se tem que beber, deve ser muito ruim.

Não é, pensei, ou é, titubeei, mas acreditar neles seria como deixar de ver Rocky IV porque o Micky morre no III, ou Rocky V porque o Apolo morre no IV, de modo que, além da culpa de trair minha Mangueira, me expiei de preconceitos – conclusões somente a posteriori, sim? Boas férias, meus botões, e que venham os abadás! Tatuagem temporária é ruim de tirar, tô fora. Já as bandanas, vão a gosto: há quem use de munhequeira, véu, realce a bíceps e panturrilhas (a la Chong Li) ou mesmo para fins menos exemplares, como já se verá. Enrolei a da Mangueira no pulso, que se todo traidor fizesse propaganda, mulher divorciada não morreria solteira.

Alegria, alegria, meu povo! “Vamo nóis”, com lenço, mas sem documento, a não ser o passaporte no corpo pra mostrar na imigração – os seguranças conferem os abadás a qualquer altura do bloco antes de levantar a corda que carregam em fila perimétrica. Sejam bem-vindos ao ringue: um caminhão leva em cima os músicos, outro serve de apoio e ambos dividem em três partes o mundaréu monocromático de foliões no asfalto, uma horda de solteiros em sua, literalmente, esmagadora maioria. Fala, compadre. Oba, tudo bem? Beleza. E aí? Tranqüilo. Qualé? São Sebastião tirou o chapéu de palha e se fantasiou de São Salvador, nunca me senti tão popular noutra cidade. Apresente as meninas, rei. Com prazer. O Rio desembocou na Bahia, com direito a pororoca no Nana Banana e no Me Abraça.

É a sua primeira vez? Ih, peralá, neguinho tem cada pergunta… A principal delas é o placar. Quantos? Quantas? Nem a calcinha da Ivete desperta tamanha curiosidade. Será trinta um número exorbitante? Alguns perguntariam: para uma vida ou para uma noite? Mas ninguém se importa, porque imagem não é nada, sede é tudo, obedeça a sua sede, pegue geral! Parece até que a lei foi sancionada: quaisquer atos vivenciados no carnaval soteropolitano, condenáveis ou não pela sociedade, serão proscritos da memória coletiva tão logo finde o mesmo. Assim, concluo, com o indulto antecipado, o pecado iminente para o qual haverá perdão sem a necessidade de sujar os joelhos no confessionário, a maioria cai em tentação e até mesmo a cria para depois nela mergulhar de cabeça. (Convenhamos que trinta tentações na mesma noite, nem em camarim de Miss Universo.)

Bell Marques canta o amor eterno lá de cima, a saudade presa no coração, o amor perfeito no peito, o vôo para o ninho, pois ninguém vive sozinho, tudo dentro de uma receita de letras simples e melodias empolgantes – até mesmo para sambistas conservadores –, enquanto no chão, empapuçados de álcool e suor, uns beijam as outras, as outras beijam os outros e os outros beijam as amigas das outras. Rodinha, fila, suingue, arrastão de beijos, ora por vontade consentida, ora à força, ora sem querer tamanho o aperto e ora sem saber graças à inalação providencial (seja diretamente ou depois de embeber uma bandana) de lança-perfume, a droga contrabandeada da Argentina para atender à demanda da sempre indignada classe média brasileira. Quem tá solteiro aí? Quem ainda não beijou vai beijar agora! Assim gritam Bell, Durvalino, Ivete e companhia, e assim se faz o marquetingue tribalista dos espetáculos de axé.

Rapaz, aquela menina ali não é da PUC? É, tá passando o rodo… E aquela tua amiga, hein? Pois é, tá fazendo fila, por que tu num tenta a sorte? Não, não, tô numa de pensamento. Por quê? Ex-namorada na área, manja? Ih… E não sou só eu, Salvador virou o recanto das ex-namoradas: você paga o fondue durante anos, ensina qual é o De Niro e qual é o Pacino, e depois ela tá aqui pegando um cara tatuado, sem camisa e deixando ele passar a mão na bunda. E tu, num tá pegando geral? Ah, mas eu sou homem. Qual é a diferença? Existe diferença, sim, você sabe disso. Isso não é machismo? Machista é a sociedade, quer ver, ô clarividente? Manda. Então me diz qual é pior: a mulé que pega uns vinte no bloco ou a que pega um e dá pra ele depois do bloco? O que isso tem a ver com a tua mulé? Não interessa, responde. Ih, sei lá, me tira dessa, mete um ponto parágrafo aí, ô de casa!

Tá metido. Tão metidos. O ponto parágrafo e os cariocas, segundo as moças do meu tempo, meu caro Zé Kéti. Eles acham que a naturalidade é suficiente pra merecer beijo na boca, veja só que pretensão. Você não vai me beijar? Eu sou carioca! Não é bem assim, conterrâneos, as moças de família andam mais ressabiadas. Mas que os guerreiros não se preocupem: são só as de família. Uma pesquisa boba mostrou que a maioria dos entrevistados esperava encontrar um grande amor no carnaval. Não em Salvador, aposto, onde a sedução alcança os maiores índices de banalização, tornando ainda mais difícil conhecer alguém para ouvir junto às águas de março baterem no vidro da janela. E, se por um acaso se conhece, difícil é fazê-la acreditar em deslumbre e encantamento, principalmente se você tiver o azar de ser carioca. Muita calma e lábia numa hora dessa.

E muita calma também ao término dos blocos. Ou pressa, não se sabe ainda o que é recomendável. Bell avisa antes da saideira: galera do Nana, junte-se aos amigos e voltem pra casa atentos. Juntei-me aos amigos, voltamos pra casa atentos, a tropa arregimentada para percorrer o trajeto a contrapelo, e mesmo assim nossos bolsos viraram corrimão de quartel. Um amigo mal avisado viu seu colar indo embora em mãos ariscas. Outro, cansado de ter o bolso revolvido na multidão, levantou as mãos e passou gritando: podem mexer, já levaram tudo – ao que alguns safardanas agradeciam o poupar de seu tempo. Eles roubam até passar a fila imponente (e insuficiente) de oficiais da polícia militar, quando, aliás, testemunhei um deles sorrindo para um bandido como quem diz: agora você pára, né? Sim, param, dão adeus e voltam a pôr a mão na massa.

Aos sem-teto e sem-terra, excluídos do meu Brasil guaranil, agrega-se uma nova classe, sazonal, porém revolucionária: a dos sem-abadá, vulgos pipoca. E, como em toda classe social, há os que prestam e os que não prestam. A pipoca é composta por foliões à paisana, cuja indumentária livre só permite acesso a determinadas praças do percurso, calçadas apertadas e demais locais onde são espremidos em prol do divertimento dos com-abadá – vulgos ricos. Ricos e pobres, portanto, compõem um cenário estratificado, dividido por linhas de seguranças e visto com maior nitidez dos camarotes. Finda o circuito, baixam-se as cordas, as cores das roupas e das peles se mesclam, dois mundos se fundem e o Brasil mostra a sua cara. Me arranja esse abadá por duas cervejas e uma água? Os ambulantes vêm regatear com os ricos e os não-ambulantes mendigam: você tem que entender a situação da gente, que mora aqui, é fã do Chiclete e não tem dinheiro. Me arranja esse abada aí, patrão? (Ouvem-se em média – longe de mim as hipérboles! – uns quinze peditórios como esse depois de cada bloco).

Fico assim meio Rocky Balboa em meio à invasão do ringue, com um monte de perguntas no ouvido enquanto grito em delírios pela mulher amada, que não aparece. Volto à realidade e peço desculpas aos pedintes, vou guardar os abadás de lembrança – eufemismo para troféu –, inclusive o do Nana de sábado, apesar do trauma. Desde minha época de cover do Michael Jackson na escola que eu não passava tanto tempo inclinado a quarenta e cinco graus. Foram quase duas horas para ir de trás do bloco para frente, com momentos de memorável agonia como ficar esmagado contra o caminhão do Chiclete, este em movimento, pensando em atravessá-lo por baixo para respirar (como faria um larápio depois de roubar um folião no trio da Ivete). Isso até Bell interromper a música para organizar a pipoca desvairada e pregar a não-violência do alto de seu púlpito. Obrigado, rei, mas da próxima vez vê se vende menos abadá, falô? Zunzumbaba pra você também.

É inegável o carisma do cabeludo. Ele, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e Durvalino têm qualquer coisa de cativante, muito além dos vocalistas de É o Tchan, Harmonia do Samba, Companhia do Pagode e outras formas alotrópicas de cantores baianos. Do polêmico Camarote 2222, em frente à concentração dos blocos, com o Farol da Barra ao fundo, vi tudo. E fiquei sabendo de um certo cochicho entreouvido no mesmo camarote no ano passado, cujos protagonistas, dois grandes nomes da dita MPB, batiam palmas da varanda. Um dizia: bandinha ruim, essa. E o outro: o pior é ter que aplaudir enquanto eles babam nosso ovo. Cada um com seus compromissos e, pelo menos este ano, quem não tivesse nenhum que fosse abusar da comida, da bebida e da internet liberadas. O céu era ali, minha gente, apesar do Marcos Mion. Se Deus tivesse os patrocínios da primeira dama da cultura, o Fome Zero viria de cima.

Garçons, modelos, celebridades e, entre um queijo brie e outro, a reflexão foi inevitável. Quem consegue um visto para o céu merece rever a vida pregressa nem que seja em fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo: a Ivete levanta poeira, o Asa arreia, o Chiclete gruda no ouvido, o álcool se esparge aos borbotões, os sentidos se confundem, a juventude ébria, mulheres a granel, a euforia dos libertinos incontestes, o eflúvio de lança-perfume, vamos potencializar as qualidades, viva o hedonismo!, os dialetos cantados em coro!, quem é que entende Carlinhos Brown?, emu gé gé, emu gé ge, o significante prevalece ao significado, viva a alegria verdadeira!, a alegria fabricada!, a alegria imposta!, dê um grito aí, faça a festa pra valer, isso aqui é o paraíso!, ou não, que nojo!, ah, deixa de ser chato!, eu, hein!, que gente impudica!, dandalunda, meu rei, é lindo o povo feliz, cada trio é uma jangada a sair num mar de gente, baiano trabalha sim, empregos indiretos, beijos por tabela, eu não sou igual aos outros, em que blocos você vai?, venho aqui há oito anos, troca de abadá comigo?, hoje eu saio em quatro blocos, já tem camarote?, o circuito Barra-Ondina é melhor que o de Campo Grande, alugaram apartamento?, a pipoca do Camaleão tá sinistra esse ano, te encontro na Casa de Itália, antigamente era melhor, vamo fazê o pré no Boêmia, chegou quando?, agora virou indústria, vai pra Morro depois?, vai ficar parado, seu fura-olho?, é a maior festa popular do planeta, já pagou o Catamarã?, tira o cordão, essa fila toda é pro xixi?, celular nem pensar, vou fazer lá fora mesmo, foto só na internet, demorei muito?, dinheiro na cueca, uma umburoska por favor, uma sirigüeloska pra mim, sai do chão!, prove pelo menos, é típico, já foi ao Pelô?, sai do chão!, não deu tempo, vira-vira-vira, chega na ruiva que eu vou na loira, é pra sair do chão de novo?, já pegou quantas?, levanta a mão!, entre no clima!, hoje eu tô facinho, deixa eu passar, ih, a morena mais linda do avião, já vão baixar as cordas?, você viu fulano?, tô perdido, melhor esperar, melhor procurar, gostou?, amou?, é maravilhoso, não é?, e aí?, vem ano que vem?, já começaram a vender…

Basicamente, o carnaval de Salvador é isso: fragmentos de tudo, de todos e de si mesmo. Agora, aos que vierem com sorrisos e olhares maliciosos quando eu disser pra onde viajei em fevereiro, aquelas mesmas expressões que enfrentei tempos atrás depois de uma viagem a Amsterdã, umas feições de quem está imaginando suas agruras em terras distantes e famigeradas onde existem algumas permissividades que muitos invejam, normalmente os mesmos que vêm com tais olhares e sorrisos, aos que se aproximarem de mim com este perfil, portanto, serei obrigado a dizer nada, nada mesmo, até porque, amante das letras que sou, não gosto de interferir na imaginação alheia. (Que tal, aliás, imaginar três homens com a mesma mulher num quarto de hotel após o bloco? Aí, ao ouvir a campainha, ela interrompe a tripla penetração e, com um grito, põe ordem na casa: “Mais um, não!”. Acertou quem imaginou o cronista como o sujeito que toca a campainha. Tudo bem, vá lá, como o sujeito que cruza com a moça no elevador, porque um outro já havia acabado com a suruba ao tocar a campainha. Pelo menos a história é verídica.)

Contudo, aos meus leitores, aos meus amigos e aos meus botões, confessarei apenas que, contaminado pelo ideal carnavalesco da transgressão, deixei o suco de frutas e a água de lado, respirei fundo, tomei coragem e quebrei um tabu de quatro anos sem beber. Refrigerante, claro. Cada um com as suas liberdades.

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