Vinte anos sem Elis

Por Walter Silva, o Pica-Pau

O que têm em comum estas cantoras: Maria Betânia, Simone, Gal Costa, Marina Lima, Joana, Cássia Eller, Leila Pinheiro, Ângela Rô-Rô, Lecy Brandão, Sandra de Sá, etc? Acontece que elas têm, como característica principal, a sua opção sexual e fazem dela a sua performance artística e com isso se comunicam.

Elis, não! Usava apenas seu privilegiado aparelho emissor, a voz, para transmitir seu enorme talento, sua profunda emoção. Apenas com a força de sua voz, ia dos graves aos agudos, misturando Carmen Miranda, Ângela Maria, Billie Holiday, B. B. King, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan; do blues ao carnaval; do samba ao rock, passando pelas canções mais pungentes, como, por exemplo, a imortal Atrás da porta, de Francis Hime e Chico Buarque. Elis era e é, ainda hoje, a maior cantora que este país já teve. Canta cada dia melhor.

Conheci Elis em 1962, quando veio ao meu programa de rádio “O Pick-Up do Pica-Pau” divulgar seu primeiro compacto simples, reunindo dois sambas, um deles Dor de Cotovelo, de João Roberto Kelly e, se não me engano, Um dois três, balançou, de um compositor gaúcho, me parece, Glênio Reis. Foi o primeiro programa de rádio a que Elis compareceu, por ser ele o primeiro que recebia artistas começando naquela segunda-feira, às 10 da manhã, na Rádio Bandeirantes.

Lembro-me de ter dito a ela:

– Menina, você será a maior cantora deste país.

Isso está gravado e há quem tenha essa gravação.

Depois, em 63, em Porto Alegre, tivemos oportunidade de aumentar nosso relacionamento, quando fui cobrir para a Rádio Excelsior, o programa Brasil 63, da TV Excelsior, Canal 9, de São Paulo. Bibi Ferreira era quem apresentava o programa e como, em cima da hora, houve um imprevisto, Manoel Carlos me pediu para apresentar no lugar dela. Nos bastidores, saltitava de um lado para o outro, tietando, aquela figurinha mágica, vestida de branco, espalhando alegria para todos os lados. Era Elis Regina, que naquela noite não cantaria. Ainda não estava à altura daqueles nomes todos como Silvio Caldas, Dorival Caymmi, Orlando Silva, etc. Ela estava apenas começando.

Entre um número e outro, continuávamos a conversa começada antes, ela me contando sobre sua carreira e eu sobre meu programa. Meu relacionamento com Elis começou ali, naquela noite de muita emoção. Lembro-me que, ao terminar o programa, Manoel Carlos me abraçou e me deu um beijo em sinal de agradecimento pelo meu desempenho. Foi o primeiro beijo que recebi de um homem. Hoje é mais comum. Depois fomos jantar em uma churrascaria, que ninguém é de ferro.

Walter Silva, o Pica-Pau, com seu xará

O primeiro show de Elis em São Paulo, foi na boate Djalma’s, na praça Roosevelt, produzido por Arley Pereira, Solano Ribeiro e o gordo Teco. Ela cantava com Sílvio César e o “Sambossa 5”, de Kuntz (sax), Luís Mello (piano), Hector Costita (sax tenor), Turquinho (bateria) e Xu Vianna (baixo), pai do jogador Ricardo Gomes da seleção.

Era agosto de 1964. No dia 31 desse mês, realizou-se, no Teatro Paramount, o show “Boa Bossa”, criado pela Associação de Moças da colônia sírio-libanesa de São Paulo, comandada por Najat Haddad. A produção desse show foi de Sérgio Barbour, apresentado pelo saudoso Humberto Marçal. Ajudei na direção e vibrei com atuação de Elis naquela noite. Acabou com o baile, como se costuma dizer. Dali, a convidei para participar do show “O Remédio É Bossa”, que eu estava produzindo para os alunos da Escola Paulista de Medicina. Nele, sua participação seria cantando Terra de ninguém, com Marcos Valle e o Copa Trio (Salvador, Dom Um Romão e Gusmão)

Foi um estouro. A gravação existe, lançada pela RGE. Naquela noite, conheci todo o potencial de palco de Elis e a convidei para seu primeiro show solo, no Paramount, para duas mil pessoas. Foi no dia 23 de novembro daquele mesmo ano, na segunda parte do show “Primeira Denti-Samba”, para os alunos da Faculdade de Odontologia da USP, em que ela cantou, também com o Copa Trio, por mais de uma hora.

Esse show teve que ser adaptado para palco maior, uma vez que fora criado, por Miéle e Bôscoli, para a boate Bottles, do Rio de Janeiro, no qual Elis cantava para pouco mais que trinta pessoas, ganhando 5 reais por noite, enquanto que para cantar no Paramount ela ganhou, só naquela noite, 65.

Nossa amizade foi se concretizando e se alicerçando cada dia mais. Com sua mudança para São Paulo, indicamos o colégio para seus filhos (Pueri Domus) e já no ano seguinte, em abril, produzimos o show com ela, Jair Rodrigues e o Jongo Trio, que virou o disco Dois na Bossa, o primeiro LP a vender um milhão de cópias no Brasil. Esse show era para ser feito com Elis, Simonal e Zimbo Trio. Como em cima da hora eles tiveram que viajar com a Rhodia para o Peru, fiquei só com Elis. Sugeri a ela que puséssemos Baden Powell no lugar deles, mas também Baden se mandou para a Alemanha, deixando-nos a ver muitos navios.

Numa daquelas noites, quando íamos apresentar Elis para o que viria a ser seu empresário, Marcos Lázaro, junto com Solano Ribeiro e Déa, minha mulher, Jair Rodrigues encerrava uma temporada na boate Cave ou Stardust, já não me lembro, quando Déa sugeriu:

– Por que você não põe o Jair no show com a Elis?

Retruquei:

– O Jair e a Elis não têm nada a ver!

Ela acabou me convencendo e estava formada a dupla. Na mesma hora falei com o empresário de Jair, o saudoso Corúmba, e o show foi acertado: dias 9, 10 e 12 de abril de 65, no Teatro Paramount. Seria o primeiro show do gênero na carreira dos dois.

Sucesso total, casa cheia nas três noites. E olha que, em cima da hora – porque a TV Record programou a entrega do Roquette Pinto que Elis receberia no dia 10 –, tivemos que mudar para o dia 11 e assim mesmo o sucesso foi enorme.

Nosso relacionamento foi se solidificando cada vez mais. Rogério, seu irmão, jogava futebol comigo por anos seguidos nos fins de semana, ao lado de Fernando Faro, Natan Marques, os gêmeos Haya e Lafaiette, Plínio Marcos e tantos outros. Meu filho Waltinho era professor de Pedro e Maria Rita, no Pueri Domus; minha filha jornalista, Celina Silva, passara a ser assessora de imprensa de Elis, cargo que ocupou até a morte dela. Meu filho Rodrigo estudava com João Marcello e os irmãos Cláudio e André Szajman, que hoje dirigem a gravadora Trama.

Quis o destino que eu cuidasse até do seu velório. Juntamente com seu irmão Rogério e o produtor Roberto de Oliveira, escolhemos como local do seu último adeus o palco do Teatro Bandeirantes, que deveria ser mudado para Teatro Elis Regina, no qual ela estrelou o seu maior sucesso, o show Falso Brilhante.

Dá para entender o quanto éramos íntimos e o ótimo relacionamento pessoal e familiar que nos unia. Por isso, esta saudade e esta vontade de chorar, principalmente quando ouço o que anda por aí, rotulado de cantora.

 

(Texto inédito, escrito em janeiro de 2002 e incluído no livro “Vou te contar – Histórias de Música Popular Brasileira”, do próprio radialista)

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